A Passagem das HorasA Passagem das Horas
de Álvaro de Campos
com Peter Michael e Raquel Dias
teatro (M/12)

“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi, através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que eu quero.” – Álvaro de Campos

Palácio do Sobralinho
15 Março 22:00

É um poema da fase sensacionista de Álvaro de Campos. Aborda angústias, pensamentos, desejos e recordações que arrebatam o ser humano durante toda a sua existência. Entre vida e morte mergulha num diálogo interior, coloca a questão da identidade, bifurcando-se em busca do auto-conhecimento. Até às últimas consequências.

O AUTOR E O TEXTO
Fernando Pessoa, o poeta fingidor, foi na verdade profundamente sincero na sua recusa de uma unidade existencial e no assumir do ser humano como um fluxo contínuo, uma instabilidade permanente. Deixou uma confusão de vozes, os heterónimos, que refletiam o caos que sentia dentro de si e no universo que o rodeava. O seu brincar aos heterónimos foi uma forma de pôr em evidência a ficção das nossas próprias vidas, a nossa irrealidade. À vida chama-lhe espetáculo, intervalo, interlúdio, breves momentos de uma peça teatral passados entre uma realidade e outra que ignoramos. A heteronímia servia-lhe como fiel lembrança da sua fragmentação e da transitoriedade existencial, de acordo com Richard Zenith, mas era também uma viagem de auto conhecimento através de seres inventados.

A Passagem das Horas“Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890,é engenheiro naval (por Glasgow), é alto(1,75 de altura), magro, cara rapada cabelo liso.(…) fez uma longa viagem ao Oriente, viveu e trabalhou em Inglaterra, onde cortejava rapazes e mulheres, finalmente regressou a Portugal, fixando residência em Lisboa.(…) pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à minha vida.” carta de F. Pessoa

Segundo os relatos de Pessoa, Álvaro de Campos seria um pagão por revolta a quem nada bastava ou satisfazia. Para Campos as coisas devem simplesmente ser sentidas.

Poeta do urbano e febril, Álvaro de Campos na “Passagem das Horas” (poema Sensacionista e de influência Futurista) faz a exaltação do mundo moderno, do progresso técnico e científico, da industrialização e da evolução da humanidade. Mas ao longo de todo o texto, as perguntas e as respostas misturam-se no interior do eu em luta consigo mesmo, apresentando uma personalidade complexa e expondo a fratura do homem contemporâneo.

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos é encenador e ator de si próprio, o supremo despersonalizado para poder construir. No teatro mental de Álvaro de Campos, que é a Passagem das Horas, sublinha-se a faceta transfronteiriça do ator, entre a sua face e a face do outro: “Multipliquei-me, para me sentir / Para me sentir, precisei sentir tudo, / Transbordei, não fiz senão extravasar-me, / Despi-me, entreguei-me, / E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.”


Com Peter Michael e Raquel Dias
Encenação Raquel Dias
Assistência de encenação Kari Jeppesen
Desenho de luz Carlos Ramos
Música José Salgueiro e Guilherme Salgueiro
Figurinos Manuel Moreira
Co-produção Voz Humana / Centro Cultural Malaposta